sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mudança.


"Eu queria ver no escuro do mundo, onde está o que você quer. Pra me transformar no que te agrada, no que me faça ver quais são as cores e as coisas pra te prender. Eu tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Às vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais. Teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz."

Cazuza, Quase um segundo.
Uma hora da manhã, me encontro sóbrio e sozinho em minha casa. Daqui algumas horas ela não será mais minha. As paredes amarelas da fachada sempre me causaram náuseas. Essa noite me pareciam simpáticas. Talvez porque não teria mais a obrigação de olhá-las sempre que entrasse pela porta da frente. Mudar de casa é sempre uma tortura, jogar fora o que não lhe convém mais, empacotar tudo, desempacotar e arrumar novamente. Sempre quebra alguma coisa. Sempre há uma recordação. Mudar de casa significa mudar de vida.
O telefone toca. O único eletrodoméstico que não foi aprisionado numa caixa.

 Alô? Victor?
Uma voz feminina e familiar. Reconheci pelo "Alô".

 Sim. 
  Ah, que bom. Achei que já tivesse mudado.
 Ainda não. Estou arrumando a bagunça e empacotando o que faltou. 
 Muita coisa? 
 Muita.
 Humm...
 Está tarde. Aconteceu alguma coisa? 
 Não, só não consigo dormir. Precisava ouvir uma voz conhecida. A sua.
 Entendi. 
(Silêncio)
 Estive pensando, Victor... por que tudo não volta a ser como antes?
— Não sei. 
  parei alguns instantes, tentando refletir.  Meu pai dizia que somos como produtos, temos nossa data de fabricação e validade. Os momentos também devem ser assim. 
Houve uma pausa longa. Conseguia escutar sua respiração pesada e jurei ter escutado um breve soluço. Talvez tenha sido frio, mas as coisas deveriam ser assim.  
 Natasha? 
 Desculpe, estava entendendo o que disse. Foi um pouco duro.
 A realidade é dura. Nós só temos que saber lidar e conviver com ela.
Ela fungou. Provavelmente aceitando sua derrota. Depois prosseguiu, impaciente. 
 Odeio quando está certo.
— Eu também, na maioria das vezes. 
(Silêncio)
 Me desculpe incomodar, e-eu... eu sinto muito. 
 Natasha, nós já conversamos sobre isso. 
 Eu sei, eu sei, mas precisava escutar sua voz. Sei lá, só precisava.
— Pegue um livro pra ler, assim irá dormir.
 Certo. Boa noite! 
 Boa noite! 

Natasha e suas crises emocionais. Hesitou várias vezes antes de fazer a ligação. Posso assisti-la momentos antes de finalmente tocar o telefone. Ansiosa, com os nervos a flor da pele enquanto anda de um lado para o outro, pensando se seria importuno fazer a ligação ou não. Parece certo, mas soa errado. O número já está de cor na mente, assim como o futuro diálogo. É só discar. A cada toque que antecede minha resposta a faz se arrepender mais, sente-se ainda mais patética. No entanto, a necessidade de consolo ou de alguém que a conheça melhor que a si mesma, é ainda mais forte que a vontade de retroceder com sua escolha. Então ela espera, apreensiva. Assim que a chamada encerra, morre mais um pouco. 

Ela conhece muito bem sobre as cores. Tem talento para decorar os dias. Tudo nessa casa foi ajeitado a seu modo, gosta das coisas a sua maneira. Por essa razão estou me mudando. O que tivemos foi quase um desastre. Um desastre perfeito. Os vestígios dele continuam intactos nessa casa. 


(Texto escrito por Ingrid Sodré)

2 comentários:

  1. Ainda bem que eu caí aqui. Adoro textos com riquezas de detalhes e o seu foi arrebatador. Nessa nova onda crescente no mundo virtual de blogs que só falam de moda e tendências, ler sobre a vida e sentimentos é o que me faz querer ficar. É como se ao ler as suas letras tão milimetricamente lindas, eu estivesse em casa.
    Muack. :*

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  2. Texto lindo! Curti seu blog, já tô seguindo ;)

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